domingo, 11 de dezembro de 2011

Lélia Gonzalez é homenageada "in memoriam" no 1º Presente de Oxum do Rio de Janeiro


Lélia Gonzalez é homenageada "in memoriam" no
Primeiro Presente de Oxum

Troféu Espelho d'Água


11 de dezembro de 2011
domingo

a partir das 10h

 Aterro do Flamengo
Posto 03
(altura da Praia do Flamengo, 300)
(altura da Rua Tucumã / entre Paissandu e Cruz Lima)

Iniciativa e Realização:
Mãe Iva D'Oxum - Ilê Axé Funmilayo
Desde a direita: Mãe Iva, Ana Felippe, Vanda Ferreira, Mãe Arlene de Katende (óculos)

À caça do racismo verde-amarelo* ou Quem tem medo de encruzilhadas?

À caça do racismo verde-amarelo* ou Quem tem medo de encruzilhadas?
Este texto foi publicado em 16 de junho de 2011
no site parceiro Amai-vos.
1 - Situando a questão


Em 01 de junho de 2011, a Câmara de Educação Básica, do Conselho Nacional de Educação (do Ministério da Educação) aprovou por unanimidade o voto da Relatora ao Parecer CNE/CEB nº 6/2011 - Processo nº 23001.000097/2010-26 – fruto da devolução por parte do MEC (sob pretexto de “reexame”) do Parecer CNE/CEB nº 15/2010.  Este Parecer 15/2010 sofreu (no final de 2010 e início de 2011) interpretações por demais equivocadas por parte de alguns órgãos da imprensa (escrita e falada) e de alguns “intelectuais”, apesar de estar totalmente coerente com “os parâmetros, critérios e procedimentos utilizados no PNBE” (Programa Nacional Biblioteca da Escola).

O Parecer CNE/CEB nº 15/2010 foi atentamente reexaminado e reescrito pela mesma Conselheira Relatora, após estudar detalhadamente todo o rico e controverso material que chegou ao conhecimento da Câmara de Educação Básica (CEB) do Conselho Nacional de Educação (CNE), o qual subsidiou a redação do novo Parecer.

O novo Parecer (nº 6/2011) termina com a aprovação por unanimidade: Brasília (DF), 1º de junho de 2011. Conselheira Nilma Lino Gomes – Relatora / A Câmara de Educação Básica aprova por unanimidade o voto da Relatora. Sala das Sessões, em 1º de junho de 2011. Conselheiro Francisco Aparecido Cordão – Presidente / Conselheiro Adeum Hilário Sauer – Vice-Presidente.

2 - As encruzilhadas não temem sacrifícios!

Li o Parecer CNE/CEB nº 6/2011 (1), aprovado em 01 de junho de 2011 (fruto do Reexame do Parecer CNE/CEB nº 15/2010).  Também li algumas notas jornalísticas.

Reitero que o Parecer anterior – bem como o atual – evidenciam o núcleo central do assunto que é muito mais grave e profundo que uma eventual proibição ou veto à obra literária de quem quer que seja.

Penso que o que motivou a devolução do Parecer anterior, por parte do Senhor Ministro da Educação, foi exatamente o fato de – como responsável-mor pela política educacional; pela aquisição de obras e pela colocação dessas obras nas mãos (e nas mentes) de alunos e alunas para a Formação destes e destas – o Senhor Ministro ter sido colocado em uma encruzilhada!  Não que o Conselho Nacional de Educação tenha colocado uma questão maniqueísta (ou este lado; ou este outro) para a educação; ou para a sociedade; para a Academia Brasileira de Letras e, menos ainda, para o Senhor Ministro!

Uma encruzilhada foi criada por uma mídia apressada e de antolhos que, mesmo quando tem a possibilidade de tirar o bridão, de pronto coloca um par de óculos 3D para o conforto de uma visão que só vislumbra o que está afeto a seu métier.  Nessa direção compartilho das análises de Ignacio Romonet que tem tratado, nos últimos quinze anos, da mercantilização e pasteurização da imprensa. (“Ignacio Ramonet descreve explosão do jornalismo”, 20/04/2011)

O que nos espantou foi o fato de o Sr. Ministro ter escorregado na “casca de banana” que a imprensa e intelectuais da hegemonia da falácia da “democracia racial” jogaram em sua caminhada, em sua estrada, fazendo aparecer uma encruzilhada que não estava projetada para aquela trajetória.

E por que não estava projetada? Por que havíamos entendido que o racismo havia acabado, depois da belíssima audiência pública sobre Cotas (2) quando intelectuais, políticos e ativistas favoráveis deram um verdadeiro “banho” de conhecimento das causas da brasilidade, além da serenidade com que colocaram suas posições? Por que entendemos que o racismo está em passo largo de superação quando o IBGE declara (e os jornais publicam) que o PNAD de 2008 (divulgado em setembro de 2009) identificou que maioria da população se considera parda ou preta? Não! Não! ... E não!  Depois de 122 anos de abolição inconclusa, não temos ilusões quanto à persistência de um racismo que é estrutural e sistêmico (conforme explica Carlos Moore com bastante lucidez)!

O que não estava projetado era o fato de o Sr. Ministro abdicar de sua posição “mor” e não ter tomado a atitude de analista profundo – lançando mão da competência do Conselho Nacional de Educação... O que não estava projetado era o fato de o Sr. Ministro se permitir perder a oportunidade de dar uma aula “inaugural” (naquele final de 2010) dos novos tempos projetados mundialmente para 2011 como o Ano Internacional para Afrodescendentes (lançado na Assembleia Geral da ONU, em 18 de dezembro de 2009).

Como o segundo País de maior população negra no planeta, o Sr. Ministro se deixou colocar na encruzilhada criada pela mídia e por intelectuais racistas; a mesma encruzilhada que desde o “caminho marítimo para as Índias” a hegemonia colocou para negros africanos impondo um holocausto negro que (ainda no viés da democracia racial) chamamos de diáspora africana no Brasil (ou nas Américas).

O que muitos não sabem é que “encruzilhada” não é problema para negros/as colocados em holocausto e agora diasporisados!  Tive a oportunidade de aprender com o artista plástico Ronaldo Rego, profundo conhecedor da Negritude, que “as encruzilhadas não temem sacrifícios”. Este provérbio iorubá, mesmo que talvez não seja do conhecimento consciente da maioria da população brasileira (majoritariamente negra) é, com certeza, força ancestral que tem possibilitado ao longo de mais de 400 anos a superação da eugenia que vem sendo imposta a negros e negras; eugenia que muitas vezes, ao longo da história e até recentemente, se veste de extermínio!

Sobre o que tem aparecido em publicações alternativas e listas de discussão, no que concerne a declarações de algumas pessoas da causa negra brasileira, congratulo-me com o espírito combativo de algumas delas, mas, ao mesmo tempo, penso que o combate não pode (jamais!) ser dirigido aos nossos e às nossas.  E, no caso dos Pareceres, ambos tiveram a participação e relatoria da Professora Doutora Nilma Lino Gomes que precisa ser respeitada como intelectual coerente com os temas da negritude que se apresentam a ela (e a nós, quando temos a oportunidade de partilhar com ela) a partir de seu próprio corpo e mente e lucidez!

Quando vejo companheiros e companheiras de militância racial dirigirem seu peso de combate para parceiros da cor (ou não), sempre aliados, cúmplices da causa da superação do racismo, revejo o quanto de energia desperdiçamos num exercício – aí sim – de semântica que não chega ao significado.

Penso que intelectuais, jornalistas, professores/as, pesquisadores/as que tenham compreendido as causas dos direitos humanos, dos direitos civis, dos direitos de cidadania podem lançar mão da reflexão trazida pela intelectual, doutora Luiza Bairros (atualmente na pasta da SEPPIR), conforme entrevista à Revista Raça: “... não existe conflito entre ser militante e gestora à medida que se reconheça as diferenças entre esses dois espaços. Permanece como gestora o compromisso com os direitos do povo negro, permanece como gestora o compromisso no combate ao racismo, mas entre a atuação no movimento social e a atuação do governo o que acontece é uma tradução. Nós traduzimos no governo aquilo que os movimentos sociais propõem. Mas essa tradução, como se sabe, nunca é literal. Existem diferenças do ponto de vista do sentido, existem adaptações que precisam ser feitas para que aquela agenda seja entendida nos termos que o  Estado opera. ...”  Se nos damos conta desses “dois espaços” e da necessidade de fazer a “tradução”, teremos muito mais resultados em nossa militância combativa, reivindicando (e não reclamando) por caminhos que passam a constituir estradas abertas para todos e todas cansados de seguirem por trilhas sinuosas que levam a pessoa negra (de qualquer idade) em fuga do olhar e da abordagem racista.

Sobre o objeto dos Pareceres, (um dos livros da obra de Monteiro Lobato), peço licença para nada falar, na medida em que concordo com cada uma das declarações e textos de pessoas que muito respeitamos na causa da negritude, incluindo o Parecer CNE/CEB nº 15/2010 (e, agora, o Parecer CNE/CEB nº 6/2011), e que publicamos [no] neste Blog “Memorial Lélia Gonzalez Informa” (Monteiro Lobato em "Marcadores"), entre 27 de novembro de 2010 a 03 de março de 2011:

> “Lobato e a caçada ao racismo verde-amarelo” - Heloisa Pires Lima
> “Brasil 2011: Estado festejará Ano Internacional dos Afrodescendentes distribuindo livro racista nas escolas”- Eliane Cavalleiro
> “Carta aberta ao Excelentíssimo Presidente da República Federativa do Brasil, Sr. Luís Inácio Lula da Silva”
> “Solicitação de adesão ao Parecer CNE/CEB nº 15/2010, no abaixo-assinado – com nossa pequena análise”
> “A questão étnico-racial na educação do país”- Antonio Carlos C. Ronca, Francisco Aparecido Cordão e Nilma Gomes / Opinião - Folha de São Paulo
> “Dia Internacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres: Em Defesa de nossas Meninas Candaces” - Andréia Lisboa de Sousa
> “Carta Aberta ao Ziraldo”- Ana Maria Gonçalves
> “Ziraldo e Lobato no desenho do racismo à brasileira - Heloisa Pires Lima
> “Monteiro Lobato vai para o trono?” - Muniz Sodré
> “Monteiro Lobato era racista” - Fernando Molica / "Estação carioca", jornal O Dia

Para finalizar – mas nunca suficiente, pelo tamanho do tempo histórico, tempo geográfico, tempo psicológico, social, político, econômico, de racismo ambiental e tantos outros que continuam degradando as pessoas negras e afrontando a consciência de pessoas de outras etnias que, apesar de solidárias, jamais podem imaginar o que é ter o racismo sistêmico sobre si – gostarei de deixar aos Conselheiros – e em especial à Conselheira Nilma Lino Gomes – mais um dos provérbios iorubás que dignificam a cultura ancestral e “seguram” nossos irmãos e nossas irmãs para a continuidade da luta: “Gba-n-gba lÒgèdèm̀gbé ńṣawo”. Ògèdèm̀gbé sempre realiza seus rituais ao livre. (3) Ou: “Uma grande pessoa não precisa hesitar em fazer o que tem competência para fazer”.
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* Parafraseando o título de Heloisa Pires Lima “Lobato e a caçada ao racismoverde-amarelo”, publicado neste Afrodescendentes, em "Amai-vos"
(1) Para baixar e ler o Parecer, acesso no portal do MEC
(2) STF
(3) Ògèdèm̀gbé – guerreiro Ijexá do século XIX
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** Ana Maria Felippe é Pós-graduada em Filosofia, Coordenadora de Memorial Lélia Gonzalez, professora, articulista, consultora.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Saúde: Carta de Brasília 2011

14ª Conferência Naciona de Saúde Aprova a Carta de Brasília!
  • Carta da 14ª Conferência Nacional de Saúde à Sociedade Brasileira
  • Todos usam o SUS: SUS na Seguridade Social! Política Pública, Patrimônio do Povo Brasileiro
  • Acesso e Acolhimento com Qualidade: um desafio para o SUS

Nestes cinco dias da etapa nacional da 14ª Conferência Nacional de Saúde reunimos 2.937 delegados e 491 convidados, representantes de 4.375 Conferências Municipais e 27 Conferências Estaduais.
  • Somos aqueles que defendem o Sistema Único de Saúde como patrimônio do povo brasileiro.
  • Punhos cerrados e palmas! Cenhos franzidos e sorrisos.
  • Nossos mais fortes sentimentos se expressam em defesa do Sistema Único de Saúde.
  • Defendemos intransigentemente um SUS Universal, integral, equânime, descentralizado e estruturado no controle social.
  • Os compromissos dessa Conferência foram traçados para garantir a qualidade de vida de todos e todas.

A Saúde é constitucionalmente assegurada ao povo brasileiro como direito de todos e dever do Estado. A Saúde integra as políticas de Seguridade Social, conforme estabelecido na Constituição Brasileira, e necessita ser fortalecida como política de proteção social no País.

Os princípios e as diretrizes do SUS – de descentralização, atenção integral e participação da comunidade – continuam a mobilizar cada ação de usuários, trabalhadores, gestores e prestadores do SUS.

Construímos o SUS tendo como orientação a universalidade, a integralidade, a igualdade e a equidade no acesso às ações e aos serviços de saúde.

O SUS, como previsto na Constituição e na legislação vigente é um modelo de reforma democrática do Estado brasileiro. É necessário transformarmos o SUS previsto na Constituição em um SUS real.

São os princípios da solidariedade e do respeito aos direitos humanos fundamentais que garantirão esse percurso que já é nosso curso nos últimos 30 anos em que atores sociais militantes do SUS, como os usuários, os trabalhadores, os gestores e os prestadores, exercem papel fundamental na construção do SUS.

A ordenação das ações políticas e econômicas deve garantir os direitos sociais, a universalização das políticas sociais e o respeito às diversidades etnicorracial, geracional, de gênero e regional. Defendemos, assim, o desenvolvimento sustentável e um projeto de Nação baseado na soberania, no crescimento sustentado da economia e no fortalecimento da base produtiva e tecnológica para diminuir a dependência externa.

A valorização do trabalho, a redistribuição da renda e a consolidação da democracia caminham em consonância com este projeto de desenvolvimento, garantindo os direitos constitucionais à alimentação adequada, ao emprego, à moradia, à educação, ao acesso à terra, ao saneamento, ao esporte e lazer, à cultura, à segurança pública, à segurança alimentar e nutricional integradas às políticas de saúde.

Queremos implantar e ampliar as Políticas de Promoção da Equidade para reduzir as condições desiguais a que são submetidas as mulheres, crianças, idosos, a população negra e a população indígena, as comunidades quilombolas, as populações do campo e da floresta, ribeirinha, a população LGBT, a população cigana, as pessoas em situação de rua, as pessoas com deficiência e patologias e necessidades alimentares especiais.

As políticas de promoção da saúde devem ser organizadas com base no território com participação inter-setorial articulando a vigilância em saúde com a Atenção Básica e devem ser financiadas de forma tripartite pelas três esferas de governo para que sejam superadas as iniqüidades e as especificidades regionais do País.

Defendemos que a Atenção Básica seja ordenadora da rede de saúde, caracterizando-se pela resolutividade e pelo acesso e acolhimento com qualidade em tempo adequado e com civilidade.

A importância da efetivação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, a garantia dos direitos sexuais e dos direitos reprodutivos, além da garantia de atenção à mulher em situação de violência, contribuirão para a redução da mortalidade materna e neonatal, o combate ao câncer de colo uterino e de mama e uma vida com dignidade e saúde em todas as fases de vida.

A implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra deve estar voltada para o entendimento de que o racismo é um dos determinantes das condições de saúde. Que as Políticas de Atenção Integral à Saúde das Populações do Campo e da Floresta e da População LGBT, recentemente pactuadas e formalizadas, se tornem instrumentos que contribuam para a garantia do direito, da promoção da igualdade e da qualidade de vida dessas populações, superando todas as formas de discriminação e exclusão da cidadania, e transformando o campo e a cidade em lugar de produção da saúde. Para garantir o acesso às ações e serviços de saúde, com qualidade e respeito às populações indígenas, defendemos o fortalecimento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena. A Vigilância em Saúde do Trabalhador deve se viabilizar por meio da integração entre a Rede Nacional de Saúde do Trabalhador e as Vigilâncias em Saúde Estaduais e Municipais. Buscamos o desenvolvimento de um indicador universal de acidentes de trabalho que se incorpore aos sistemas de informação do SUS. Defendemos o fortalecimento da Política Nacional de Saúde Mental e Álcool e outras drogas, alinhados aos preceitos da Reforma Psiquiátrica antimanicomial brasileira e coerente com as deliberações da IV Conferência Nacional de Saúde Mental.

Em relação ao financiamento do SUS é preciso aprovar a regulamentação da Emenda Constitucional 29. A União deve destinar 10% da sua receita corrente bruta para a saúde, sem incidência da Desvinculação de Recursos da União (DRU), que permita ao Governo Federal a redistribuição de 20% de suas receitas para outras despesas. Defendemos a eliminação de todas as formas de subsídios públicos à comercialização de planos e seguros privados de saúde e de insumos, bem como o aprimoramento de mecanismos, normas e/ou portarias para o ressarcimento imediato ao SUS por serviços a usuários da saúde suplementar. Além disso, é necessário manter a redução da taxa de juros, criar novas fontes de recursos, aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para a saúde, tributar as grandes riquezas, fortunas e latifúndios, tributar o tabaco e as bebidas alcoólicas, taxar a movimentação interbancária, instituir um percentual dos royalties do petróleo e da mineração para a saúde e garantir um percentual do lucro das empresas automobilísticas.

Defendemos a gestão 100% SUS, sem privatização: sistema único e comando único, sem “dupla-porta”, contra a terceirização da gestão e com controle social amplo. A gestão deve ser pública e a regulação de suas ações e serviços deve ser 100% estatal, para qualquer prestador de serviços ou parceiros. Precisamos contribuir para a construção do marco legal para as relações do Estado com o terceiro setor. Defendemos a profissionalização das direções, assegurando autonomia administrativa aos hospitais vinculados ao SUS, contratualizando metas para as equipes e unidades de saúde. Defendemos a exclusão dos gastos com a folha de pessoal da Saúde e da Educação do limite estabelecido para as Prefeituras, Estados, Distrito Federal e União pela Lei de Responsabilidade Fiscal e lutamos pela aprovação da Lei de Responsabilidade Sanitária.

Para fortalecer a Política de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde é estratégico promover a valorização dos trabalhadores e trabalhadoras em saúde, investir na educação permanente e formação profissional de acordo com as necessidades de saúde da população, garantir salários dignos e carreira definida de acordo com as diretrizes da Mesa Nacional de Negociação Permanente do SUS, assim como, realizar concurso ou seleção pública com vínculos que respeitem a legislação trabalhista. e assegurem condições adequadas de trabalho, implantando a Política de Promoção da Saúde do Trabalhador do SUS.

Visando fortalecer a política de democratização das relações de trabalho e fixação de profissionais, defendemos a implantação das Mesas Municipais e Estaduais de Negociação do SUS, assim como os protocolos da Mesa Nacional de Negociação Permanente em especial o de Diretrizes Nacionais da Carreira Multiprofissional da Saúde e o da Política de Desprecarização. O Plano de Cargos, Carreiras e Salários no âmbito municipal/regional deve ter como base as necessidades loco-regionais, com contrapartida dos Estados e da União.

Defendemos a adoção da carga horária máxima de 30 horas semanais para a enfermagem e para todas as categorias profissionais que compõem o SUS, sem redução de salário, visando cuidados mais seguros e de qualidade aos usuários. Apoiamos ainda a regulamentação do piso salarial dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), Agentes de Controle de Endemias (ACE), Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e Agentes Indígenas de Saneamento (AISAN) com financiamento tripartite.

Para ampliar a atuação dos profissionais de saúde no SUS, em especial na Atenção Básica, buscamos a valorização das Residências Médicas e Multiprofissionais, assim como implementar o Serviço Civil para os profissionais da área da saúde. A revisão e reestruturação curricular das profissões da área da saúde devem estar articuladas com a regulação, a fiscalização da qualidade e a criação de novos cursos, de acordo com as necessidades sociais da população e do SUS no território.

O esforço de garantir e ampliar a participação da sociedade brasileira, sobretudo dos segmentos mais excluídos, foi determinante para dar maior legitimidade à 14ª Conferência Nacional de Saúde. Este esforço deve ser estendido de forma permanente, pois ainda há desigualdades de acesso e de participação de importantes segmentos populacionais no SUS.

Há ainda a incompreensão entre alguns gestores para com a participação da comunidade garantida na Constituição Cidadã e o papel deliberativo dos conselhos traduzidos na Lei nº 8.142/90. Superar esse impasse é uma tarefa, mais do que um desafio.

A garantia do direito à saúde é, aqui, reafirmada com o compromisso pela implantação de todas as deliberações da 14ª Conferência Nacional de Saúde que orientará nossas ações nos próximos quatro anos reconhecendo a legitimidade daqueles que compõe os conselhos de saúde, fortalecendo o caráter deliberativo dos conselhos já conquistado em lei e que precisa ser assumido com precisão e compromisso na prática em todas as esferas de governo, pelos gestores e prestadores, pelos trabalhadores e pelos usuários.

Somos cidadãs e cidadãos que não deixam para o dia seguinte o que é necessário fazer no dia de hoje. Somos fortes, somos SUS.


Brasília, DF, 04/12/11

recebido de Telia Negrão - Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos / Coletivo Feminino Plural

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O leninismo literário do poeta oficial


O leninismo literário do poeta oficial

Francisco Maciel*


Senhor Editor [da FSP],

Li com espanto o a crônica “Preconceito cultural”, do poeta Ferreira Gullar, Prêmio Jabuti deste ano [2011] e considerado o maior poeta brasileiro vivo [sic].  Como ele pode escrever a seguinte frase [?]:  “Falar de literatura brasileira negra não tem cabimento. Os negros, que para cá vieram na condição de escravos, não tinham literatura, já que essa manifestação não fazia parte de sua cultura.”

Caramba! Era só o poeta ir no Google, o pai dos cyberburros:  “Literatura oral é a antiga arte de exprimir eventos reais ou fictícios em palavras, imagens e sons. Histórias têm sido compartilhadas em todas as culturas e localidades como um meio de entretenimento, educação, preservação da cultura e para incutir conhecimento e valores morais. A literatura oral é frequentemente considerada como sendo um aspecto crucial da humanidade.”   [“] Os seres humanos têm uma habilidade natural para usar comunicação verbal para ensinar, explicar e entreter, o que explica o porquê da literatura oral ser tão preponderante na vida cotidiana”.

Ou então, melhor ainda, consultar o primeiro volume do livro Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica – Os precursores, organizado por Eduardo de Assis Duarte, publicado pela Editora da Univers
idade Federal de Minas Gerais neste ano [2011], e conhecer o Mestre Didi, fundador da Sociedade de Estudos da Cultura Negra do Brasil (1974), da Sociedade Cultural Religiosa Ilê Asipa (1986) e do Instituto Nacional da Tradição e Cultua Afro-Brasileira (1987).  As esculturas do Mestre Didi, consideradas como recriações e interpretações pessoais dos símbolos dos orixás, já foram expostas em museus e galerias de arte de várias países. Ele participou, em 1996, da XXIII Bienal de São Paulo e em 1999 recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal da Bahia.

Mas vamos ao que interessa. “Com a sua literatura, Mestre Didi contou casos, narrou a história da cultura africana na Bahia e registrou antigos Itans, que são contos que fazem parte do patrimônio sagrado da tradição nagô. Baseadas na oralidade, tais narrativas ganham a chancela do texto impresso, sendo publicado no Brasil e no exterior” (ob. cit., p. 474).

Mestre Didi - escultura
Mestre Didi pertence à tradição dos griots, contadores de histórias, que vivem ainda hoje em muitos lugares da África ocidental, incluindo Mali, Gâmbia, Guiné, e Senegal, e estão presentes entre os povos Mandê ou Mandingas (Mandinka, Malinké, Bambara, etc.), Fula, Hausa, Songhai, Tukulóor, Wolof, Serer, Mossi, Dagomba, árabes da Mauritânia e muitos outros pequenos grupos.  Lembro aqui o romance que Os Mandarins, que narra as vidas pessoais dos membros de um grupo de intelectuais franceses no fim da Segunda Guerra Mundial, quase recebeu o título de Les Griots.

Escreve Ferreira Gullar: “Pode ser que os que falam em literatura negra pretendam valorizar a contribuição do negro à literatura brasileira. A intenção é boa, mas causa estranheza, já que o Brasil inteiro reconhece Machado de Assis como o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Pelé como um gênio do futebol e Pixinguinha, um gênio da música.” O fato que é Machado de Assis nunca foi reconhecido oficialmente como escritor negro. Nem Gonçalves Dias. Os únicos escritores negros de valor reconhecido são Cruz Souza, porque era impossível pintá-lo de branco, e Lima Barreto, porque sempre se assumiu escritor negro. E os estudos do livro mostram que todos faziam literatura com consciência negra.

No quarto volume do Literatura e Afrodescendência no Brasil – História, teoria, polêmica pode-se ler o estudo “A personagem negra na literatura brasileira contemporânea”, de Regina Dalcastagnè, Doutora em Teoria Literária pela UNICAMP.  Sua pesquisa aborda 258 romances de autores brasileiros publicados entre 1990 e 2004 pelas “três editoras mais prestigiosas do país, segundo levantamento realizado junto a acadêmicos, críticos e ficcionistas: Companhia das Letras, Record e Rocco.”  Uma segunda base de dado, usada como complemento e contraponto, reúne os 130 romance de autores brasileiros publicados em primeira edição entre 1965 e 1979 pela Civilização Brasileira.

Foram publicados 80 diferentes escritores no primeiro período e 165 no segundo – em sua grande maioria homens, sendo que as mulheres não alcançaram um quarto total. Mas a homogeneidade racial é ainda mais gritante: no segundo período são brancos 93,9% dos autores e autoras estudados (3,6% não tiveram a cor identificada e os “não-brancos”, como categoria coletiva, ficaram em menos de 2,4%). Para o primeiro período, foram 93% de brancos e 7% sem cor identificada” (ob. cit., p. 312).

Buscar um público de leitores negros para uma literatura negra pode até ser “tolice ou má-fé.” Mas diante de um trabalho de 10 anos, fruto da colaboração de 61 pesquisadores de 21 universidades brasileiras e seis estrangeiras, não pode ser descartado como “discriminação”. Se tivesse boa vontade, o autor do Poema Sujo reconheceria que tal esforço merece aplausos por dar visibilidade a uma produção literária que tem sido relegada aos cupins e sofre um “você não existe” de uma certa “silenciatura” brasileira. O fato dessa literatura ser negra não é um detalhe ou empecilho: é uma urgência, um reconhecimento, um testemunho.  E não é um preconceito cultural: é uma luta cultural contra o preconceito.

Ressalvada as diferenças, o projeto Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica tem pontos em comum com Cinco vezes favela - Agora por nós mesmos, projeto capitaneado por Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães, que reúne curtas-metragens realizados por jovens cineastas originários de comunidades carentes do Rio de Janeiro. É como se Cacá Diegues incorporasse Castro Alves, Jorge Amado: “Já falamos por vocês. Agora está hora de vocês botarem a boca no trombone e serem todos Pixinguinhas”.

Seria bonito ouvir isso do Ferreira Gullar. O poeta consagrado consegue ver boa intenção onde há busca de valorização e representação, mas vê estranheza na reivindicação de falar por si mesmo, ter voz própria e mostrar que, além de sambista e jogador de futebol, negros podem ser poetas e escritores.

Seria até uma força. Mas talvez seja pedir generosidade de alguém que encarna a luta pelo poder literário com um certo leninismo determinado e agressivo.



* Francisco Maciel
Autor do romance O primeiro dia do ano da peste (Estação Liberdade, 2001), que um repórter da Folha não gostou: marcou entrevista comigo e não veio.  Faço  parte antologia Entre Dois Mundos (lançada também pela Estação Liberdade, em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo). Lancei este ano um livro de poemas, Cavalos & Santos, justamente no dia do lançamento do Literatura e Afrodescendência, no dia 28 de fevereiro, na Biblioteca Nacional, no Auditório Machado de Assis.
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O texto de Ferreira Gullar, na FSP - Folha de São Paulo, Revista “llustrada” de domingo, 04/12/2011, pode ser lido no Blog “Conteudo livre” - “É Clipping!!”, de Ibitinga, São Paulo, Brasil
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Recebido de Adriana Baptista e Lia Vieira, a quem agradecemos.


domingo, 4 de dezembro de 2011

Estado Laico e minorias sofrem nova agressão de fundamentalistas - PEC 99/11


Nova agressão fundamentalista ao Estado Laico e às minorias: PEC 99/11


Por Karla Joyce

Como se não bastasse a realização de cultos em dependências de órgãos públicos como a Presidência da República e Senado Federal, Parque Gospel no Acre, obrigatoriedade de bíblias em bibliotecas públicas, ameaças ao Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação para que esta voltasse a transmitir programas religiosos na TV pública, e a concessão de passaportes diplomáticos a pastores evangélicos (Edir Macedo e R. R. Soares), a Bancada Teocrata lança uma nova ameaça ao nosso (frágil) Estado Laico.


Aqui, para assinar contra.


DH aprova inclusão de nome indígena ou africano no RG


Direitos Humanos aprova inclusão de nome indígena ou africano no RG


A Comissão de Direitos Humanos e Minorias aprovou na quarta-feira (30 de novembro de 2011) projeto...

Globo e STF patrocinam crime contra crianças do Brasil


Globo e STF patrocinam crime contra crianças do Br...:

Está na Constituição Federal de 1988. Artigo 220: § 3º – Compete à lei federal: I – regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ...