sexta-feira, 23 de abril de 2010

Gonçalves Dias: aliado às avessas?

-

Voz destoante

Por Fábio de Castro
23/4/2010

Agência FAPESP – No primeiro semestre de 1850, a revista Guanabara publicou três capítulos de Meditação, uma obra inacabada de Gonçalves Dias (1823-1864). O texto, escrito em prosa poética, é hoje praticamente desconhecido, apesar da notável importância histórica: pela primeira vez um escritor do romantismo criticava de forma implacável a sociedade, o Estado e, em especial, o sistema escravista.

Um estudo feito por Wilton José Marques, professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), abriu a discussão sobre esse texto pioneiro do poeta maranhense.

Os resultados da pesquisa – um pós-doutorado realizado com bolsa da FAPESP entre 2002 e 2003 no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – formaram a base para o livro Gonçalves Dias: o poeta na contramão, que acaba de ser publicado com apoio da Fundação na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

De acordo com Marques, o que mais chama a atenção em Meditação, é o fato de escancarar as mazelas sociais do país de forma inédita entre os escritores canônicos românticos naquela época. O eixo central do livro nasceu a partir do texto As ideias fora do lugar, de Roberto Schwartz. Uma das teses do crítico, segundo Marques, sustenta que em meados do século 19 os escritores viviam quase exclusivamente dos favores do governo.

Os intelectuais brasileiros viviam uma relação de dependência com o Estado. Essa política do favor explica por que a literatura nacional só passou a abordar criticamente o tema da escravidão quando o abolicionismo já dominava o debate nacional”, disse Marques à Agência FAPESP.

Segundo ele, quando Gonçalves Dias publicou Meditação, a literatura romântica praticamente não tinha referências explícitas à escravidão e a violência do sistema não transparecia em nenhuma obra. Os primeiros textos abolicionistas de Castro Alves (1847-1871), por exemplo, só entraram em cena a partir de 1863, quando a discussão já tomava as ruas.

O texto de Gonçalves Dias é uma crítica ferrenha à escravidão e é incrível que seja tão pouco conhecido. Praticamente não há referências à sua existência. O meu livro procura preencher essa lacuna, discutindo a posição do intelectual em relação ao Estado e a forma como ele se insere na máquina estatal por meio de uma relação de favores”, disse Marques.

Apesar da virulência do texto, Gonçalves Dias não estava isento da “política do favor”. Em 1846, quando começou sua carreira literária e mudou-se para o Rio de Janeiro, o poeta tornou-se funcionário público, trabalhando como professor no Colégio Pedro 2º.

Com a economia baseada na escravidão, o trabalho livre praticamente não existia. O intelectual, assim, não tinha alternativa além de trabalhar e ser remunerado pelo Estado. Os escritores eram obrigados a se resignar a uma espécie de “cumplicidade cabisbaixa”.

Em um país que tinha 70% da população analfabeta e os livros eram exclusividade de uma pequena elite, era natural que os escritores atuassem como funcionários públicos. Mas, apesar de se sujeitar a isso, Gonçalves Dias fez uma literatura que questionava o estado das coisas. A primeira expressão dessa contestação está em Meditação”, disse Marques.

Dedo na ferida

Gonçalves Dias estava consciente da própria situação de cooptado e acreditava que a dependência em relação ao Estado era danosa para a produção artística. Em uma carta da década de 1860, o poeta ressaltou que, “enquanto o literato precisar de empregos públicos, não poderá haver literatura digna de tal nome”.

Em sua análise, Marques discute como Gonçalves Dias estava na contramão das expectativas românticas, de valorização da natureza e do índio como “brasileiro autêntico”.

Além de criticar a escravidão e fugir da corrente comum dos escritores canônicos do romantismo, ele, naquele texto, também criticou de forma virulenta a elite brasileira. Atacou a classe política – que acusou de se aproveitar do bem público para interesses particulares – e criticou a exclusão social”, apontou.

O poeta desferiu golpes não só contra as esferas do poder, mas principalmente contra as esferas do saber. “Em determinado momento ele defendeu que é preciso dar educação ao povo. A estrutura política do Império era excludente em vários aspectos, mas especialmente em relação à educação. Gonçalves Dias colocou o dedo nessa ferida sem rodeios”, afirmou.

Em seu livro, Marques levanta a hipótese de que uma parte particularmente contundente do terceiro capítulo de Meditação pode ter sido censurada. O trecho não foi publicado na versão de 1850 da revista Guanabara, mas reapareceu em uma publicação de 1868. <> “Esse trecho retrata uma conversa noturna dentro de um palácio – que remete ao Palácio São Cristóvão – na qual políticos discutem o que fazer com o Brasil. Um deles questiona o que o Imperador pensará de tal debate. Um dos políticos levanta o véu da cama e diz: ‘o Imperador dorme’. O trecho remete ao período da regência, quando o Imperador era jovem demais para exercer o poder”, disse.

Em sua crítica à escravidão, Gonçalves Dias lançou mão principalmente de argumentos econômicos, segundo o professor da UFSCar. A entrada do Brasil na modernidade, para o poeta, só se daria por meio da implantação do trabalho assalariado.

“Gonçalves Dias não fez uma leitura humanista, como a de Castro Alves. Ele acreditava na superioridade racial dos brancos. Mas, em sua visão, a escravidão era um atraso por impedir a adoção de um modelo capitalista”, disse.

Extraído de Agência FAPESP


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ativista Dorothy Height morre aos 98

-


Ativista norte-americana Dorothy Height morre aos 98 (1912-2010)

20/04/2010 - 10:25 - Reuters

WASHINGTON (Reuters) - A ativista norte-americana de direitos civis Dorothy Height, presidente do Conselho Nacional das Mulheres Negras, morreu na terça-feira em Washington, aos 98 anos. Assistente social de formação, Height começou a militar pelos direitos civis e a igualdade de gênero na década de 1930, atuando para evitar linchamentos, proibir a segregação nas Forças Armadas dos EUA, reformar o processo penal e promover o livre acesso a acomodações públicas no país.

Ela morreu de causas naturais no Hospital Universitário Howard, segundo uma porta-voz da clínica.

No obituário dela publicado em sua edição digital, o jornal The Washington Post disse que "a sra. Height foi possivelmente a mulher mais influente nos altos escalões da liderança dos direitos civis, mas nunca atraiu a atenção da grande imprensa, que conferiu celebridade e reconhecimento instantâneo a alguns outros líderes dos direitos civis da sua época".

Em 1994, o então presidente Bill Clinton lhe concedeu a Medalha Presidencial da Liberdade, maior honraria civil dos EUA. Em 2004, ela recebeu a Medalha de Ouro do Congresso.

Fonte em português: Último Segundo

Fonte em inglês: The Washington Post

Galeria de fotos Dorothy Heigh, no The Washington Post

Máximas de Dorothy Heigh (em inglês)


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Quilombolas de Pedro Cubas e a procissão da quaresma

-
Quilombolas de Pedro Cubas mantém viva a procissão noturna que encerra a quaresma

[12/04/2010 12:24]


A Recomendação das Almas, procissão noturna que percorre mais de 20 km, é parte do patrimônio cultural quilombola, cuja tradição é mantida pela comunidade de Pedro Cubas, em Eldorado, no Vale do Ribeira. A equipe do ISA registrou a manifestação cultural.

Todos os anos, durante a semana santa, na virada da noite da sexta-feira da paixão para o sábado de aleluia, o cortejo fúnebre conhecido como Recomendação das Almas, sai do quilombo de Pedro Cubas, única comunidade quilombola da região que ainda pratica o ritual, e percorre um trecho de mais de 20 quilômetros entoando cânticos e orações. Foi assim na madrugada do sábado de aleluia, no último dia 4 de abril.

"Bendito louvado seja
Da morte paixão de Cristo
Acordai irmão das almas
Acordai se estão dormindo"

(Oração cantada da Recomendação das Almas em Pedro Cubas)

A equipe do ISA acompanhou e registrou a celebração. O material etnográfico e áudio-visual resultante integra o Projeto de Inventário de Referências Culturais Quilombolas, em elaboração conjunta com agentes culturais quilombolas. O projeto é patrocinado pela Petrobrás, e realizado em parceria com Aecid (Cooperação Espanhola), AIN (Ajuda da Igreja da Noruega), Secretaria Estadual de Cultura, Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Núcleo Oikos e Eaacone (Equipe de Articulação e Assessoria das Comunidades Negras).

O projeto busca o levantamento dos bens culturais imateriais e materiais de 16 comunidades quilombolas no Vale do Ribeira, aplicando a metodologia desenvolvida pelo Iphan, que reconhece cinco categorias do patrimônio cultural: “celebrações”; “ofícios e modos de fazer”; “formas de expressão”; “lugares”; e “edificações”. O inventário consiste na primeira etapa de um plano de salvaguarda de bens culturais, que pode culminar no registro do bem cultural nos cadernos do Iphan. O trabalho junto aos agentes culturais quilombolas deverá resultar na seleção de macro-categorias da cultura local, que contemplem as expressões culturais das comunidades.

Salvaguardar tradições culturais implica gerar internamente nas comunidades a consciência sobre a importância do objeto da salvaguarda. Com a participação efetiva dos agentes culturais e a mobilização das comunidades em qualificar suas formas culturais, o projeto alcança aquilo que constitui um de seus principais objetivos: a valorização do patrimônio cultural quilombola pelos próprios quilombolas.

A Recomendação das Almas de Pedro Cubas

Procissões fúnebres, realizadas a noite, com o objetivo de encaminhar as almas dos mortos à luz divina e às portas do céu já foram registradas em Portugal e em diversos estados brasileiros, de norte a sul, sob diferentes denominações: recomendação (ou recomenda) das almas; encomendação das almas; alimentação das almas; folia das almas; procissão das almas; sete passos; procissão de penitência.

Não se trata, portanto, de uma marca cultural particularmente quilombola. A referência desta expressão religiosa é católica, o que se percebe nas evocações recorrentes a Deus, Nossa Senhora, São Miguel, Santo Antônio de Lisboa. Em Pedro Cubas, elementos externos à tradição católica aparecem associados ao ritual, como a infusão em aguardente de guiné, utilizada para benzimento e cura, e personagens da literatura oral brasileira que são apropriados regionalmente de modo bastante particular. A Recomendação das Almas e suas variantes expressam um arranjo criativo do catolicismo à moda brasileira, encontrado em comunidades rurais, resultante das relações históricas entre diferentes tradições religiosas colocadas em contato pelo contexto colonial.

A figura do “irmão das almas”, evocado nos cânticos da comunidade de Pedro Cubas, é referência em procissões fúnebres também no nordeste, como revela a obra de João Cabral de Melo Neto Morte e Vida Severina. Aos irmãos das almas cabe o trabalho de lavar, vestir, velar e enterrar o defunto. Embora calcado na tradição católica, a Recomendação das Almas parece suspender temporariamente certas oposições cristãs: vida e morte, corpo e alma, luz e sombra. E traz para a dimensão do mundo visível, entes normalmente invisíveis. Esta suspensão permite a comunicação entre vivos e mortos e possibilita a eficácia do ritual, que é fazer com que os vivos tragam à luz as almas das sombras, para que sejam aceitas no céu. Ao mesmo tempo em que se ora pelas almas dos mortos, os participantes do ritual buscam a redenção de suas próprias almas.

A caminhada é realizada ao longo da estrada que liga a comunidade ao Rio Ribeira de Iguape. Os participantes são seguidos pelas almas dos mortos, atraídos pelos cânticos e pelo som da matraca, instrumento feito de pequenos tacos de madeira. Vivos e mortos dividem o mesmo espaço, e caminham no escuro em busca da mesma coisa: a redenção de suas almas. “A luz que buscamos, buscamos em oração”, explica o capelão Antonio Jorge. Para o curandeiro e benzedor da comunidade, Adão, “andamos no escuro para não chamar atenção de certos espíritos”. É que neste momento, as almas tornam-se visíveis, mas deve-se evitar olhar para elas.


Almas seguem os fiéis

Os locais de parada para oração são encruzilhadas, taperas, casas de antigos moradores, locais significativos da estrada. Quando param, todos se posicionam na margem da estrada, deixando a passagem livre para as almas. O capelão Antonio Jorge toca então, vagarosamente, sua matraca e entoa cânticos e orações que são seguidos pelo coro agudo das cantadeiras.

A Recomendação das Almas é realizada somente na semana santa, período em que, não por acaso, morte e vida (ressurreição) de Cristo são simbolicamente revividas. A procissão pode ocorrer em uma, três, cinco ou sete noites, conforme decisão dos participantes. Porém, é na passagem da sexta-feira da paixão para o sábado da aleluia que o cortejo percorre o trecho completo, partindo da comunidade de Pedro Cubas até o cemitério do Batatal, próximo ao Rio Ribeira de Iguape. Os trajes devem ser nas cores branca e preta. Branco para manutenção da luz e apaziguamento das almas; preto simbolizando luto.

A garrafada preparada por Cacilda, anfitriã e cantadeira da Recomendação das Almas, é uma infusão em aguardente de raiz de guiné, arruda, alho e eventualmente chifre de boi moído. Utilizada para benzimento dos participantes, antes e depois do cortejo, a garrafada é também consumida ritualmente como bebida, em virtude das propriedades medicinais de seus ingredientes. As orações intercedem pelas almas do purgatório, da encruzilhada e todas aquelas que resultam de mortes acidentais: alma dos atirados, alma dos afogados, e alma dos ofendidos (morte causada por picada e cobra). Ao retornarem, após mais de seis horas de procissão, os participantes são esperados na casa de Adão e Cacilda com café, coruja (massa de mandioca levemente adocicada) e outros alimentos da roça. Alimentam-se e vão para suas casas descansar, depois de terem cumprido a missão.

ISA, Anna Maria Andrade


quinta-feira, 25 de março de 2010

25 de março: Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos

-
Mensagem do Secretário Geral pelo Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos - 25 de Março de 2010

Nova York (Estados Unidos) – A escravidão é abominável. Está proibida expressamente na Declaração Universal dos Direitos Humanos e as Nações Unidas reafirmaram este princípio muitas vezes, como por exemplo na Declaração de Durban aprovada na Conferência Mundial contra o Racismo, em 2001.

Contudo, a escravidão e as práticas análogas persistem em muitas partes do mundo. A escravidão se transforma e reaparece em manifestações modernas, como servidão por dívidas, a venda de crianças e o tráfico de mulheres e meninas para fins de exploração sexual. Suas raízes estão na ignorância, na intolerância e na cobiça.

Devemos criar um ambiente em que esses abusos e crueldade sejam inconcebíveis. Uma forma de fazer é não esquecer o passado e honrar a memória das vítimas de tráfico transatlântico de escravos. Recordando a injustiça do passado, contribuímos para assegurar que essas violações sistemáticas de direitos humanos não voltem a se repetir.

Aqueles que controlaram o tráfico transatlântico de escravos obtiveram enormes ganhos com a morte, o sofrimento e a exploração. Realizaram a expulsão forçada de milhares de pessoas de suas terras natais na África. Os traficantes e os donos de escravos submeteram a esses migrantes forçados e a seus descendentes as formas mais duras de abuso físico, mental e emocional.

Hoje podemos ver o legado do tráfico transatlântico de escravos em todos os países afetados. Se atuarmos de forma correta, usaremos esse legado pelo bem de todos. Reconheceremos que é uma forma clara do que pode acontecer se for permitida a prevalência da intolerância, do racismo e da cobiça.

Também devemos nos inspirar no exemplo daqueles que, com grande coragem, alcançaram o fim dos abusos institucionalizados. Ao final, sua valentia garantiu o triunfo dos valores que representam as Nações Unidas: a tolerância, a justiça e o respeito da dignidade e o valor de todos os seres humanos.
Hoje rendemos homenagem a todas as vítimas da escravidão e nos comprometemos a assegurar a erradicação desta prática em todas as suas formas.

Ban Ki-Moon, Secretário Geral das Nações Unidas.

recebido de
UNIFEM Brasil e Cone Sul
unifemconesul@unifem.org
www.unifem.org.br
http://twitter.com/unifemconesul
Diga NÃO à violência contra as mulheres
NO a la violencia contra las mujeres
Say NO to violence against women

Mensagem original da Agência de Notícias da ONU


quinta-feira, 18 de março de 2010

Juizados de VD e Familiar contra a mulher terão Manual

-
CNJ elaborará manual de rotinas para juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher


O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deverá aprovar um manual de rotinas e estruturação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. Nesta segunda-feira (15/03/2010), os participantes da IV Jornada Lei Maria da Penha aprovaram a versão preliminar do manual, que ficará sob consulta pública durante 20 dias. O manual contém informações técnicas de como deve ser a estrutura mínima para o funcionamento dessas varas e como os juízes agirão no recebimento desses casos. Segundo a conselheira Morgana Richa, o objetivo é contribuir para a celeridade no julgamento dessas ações e uniformizar o atendimento das Varas. "O Judiciário é nacional e deve ter o mesmo padrão de atendimento", afirmou.

Consulta Pública

A versão preliminar será finalizada após os 20 dias de consulta pública, que é aberta apenas para os juízes que atuam nesses juizados. Os juízes deverão encaminhar suas críticas e sugestões para o e-mail: 4jornadamariadapenha@cnj.jus.br. Após a finalização do manual, o texto deve ser apresentado ao plenário do CNJ e, somente após essa aprovação, passará a vigorar. Clique aqui para ler o texto do projeto do manual.

O manual foi coordenado pela conselheira Morgana Richa e elaborado pelos juízes Adriana Ramos de Mello, do Rio de Janeiro; Luciane Bortoleto, do Paraná; Renato Magalhães, do Rio Grande do Norte; e pela juíza Maria Thereza Sá Machado, de Pernambuco. Segundo Morgana Richa, o manual segue o mesmo parâmetro do elaborado pelo CNJ para a área de execução criminal. "Deverão ser propostas resoluções, recomendações e enunciados", explica a conselheira.


A versão preliminar contém orientações para que os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher tenham uma estrutura mínima de atendimento com um gabinete, sala de audiências, espaço para a secretaria (cartório), salas de atendimento para a equipe multidisciplinar, brinquedoteca, entre outros. O texto também traz recomendações para que os juizados contenham um setor de penas e medidas alternativas com servidores e equipe técnica composta de profissionais do serviço social e de psicologia.

Há ainda a recomendação de que os juízes dessa área mantenham contato com a rede de para auxiliar no combate e prevenção da violência doméstica. Essas redes são compostas por centros de referência, casas-abrigo, delegacias especializadas de atendimento à mulher, defensorias de mulher, central de atendimento à mulher (180) e ouvidorias. A lista completa de toda a rede de atendimento à mulher está disponível no link da SPM

EN/MM
Agência CNJ de Notícias

Extraído de CNJ
-

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mulher terá Relatório Anual Socioeconômico

-
Projeto de Lei que cria Relatório Anual Socioeconômico da Mulher é aprovado na Câmara

Qua, 17 de Março de 2010 16:19


Nesta terça-feira (16 de março/2010) a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei de autoria da deputada Luiza Erundina (PL 2155/99), que cria o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher. A ideia do projeto é reunir, em um só documento, dados socioeconômicos e informações relativas a políticas públicas voltadas para as mulheres no Brasil.

“Hoje os dados estão dispersos e cada ministério tem isoladamente - ou não tem - esses dados, sem nenhuma condensação. Essa é uma medida que vai obrigar o poder executivo a reunir esses dados”, explica a deputada. Segundo Luiza Erundina, além de permitir que a sociedade acompanhe e fiscalize com mais eficácia as ações voltadas para as mulheres, o relatório também servirá de base para o planejamento de novas políticas públicas neste sentido.

“Uma das dificuldades para a elaboração de políticas públicas para as mulheres é a falta de dados. Por isso, a intenção deste relatório é apresentar, anualmente, um diagnóstico com a situação das mulheres do ponto de visto da saúde, do trabalho, da educação, da sua condição de trabalho, da sua condição econômica em termos salariais e outros dados. Com a reunião de todos estes, que devem ser objeto das políticas públicas, teremos uma visão global das políticas públicas voltadas especificamente para as mulheres no país”, completa.

Devem ser fontes de informação para a elaboração do relatório o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a Presidência da República e vários Ministérios, bem como outras entidades nacionais e internacionais que detenham informações relevantes para o relatório.

O projeto, apresentado no ano de 1999, foi aprovado após 11 anos em tramitação e deverá ser encaminhado para sanção presidencial ainda nesta semana.

Extraído de Luiza Erundina

Recebido de Miryam Hess, a quem agradecemos.
-

sábado, 13 de março de 2010

Racismo e auto-estima. Haverá?

-
Brasil: automenosprezo e racismo

O racismo brasileiro fundamentou, e ainda fundamenta, o automenosprezo de segmentos da população, que imaginam o país como inferior e sem solução. As elites adoram e disseminam este sentimento, que é fortemente conservador e útil aos propósitos dos mais ricos e poderosos.

Por Luís Carlos Lopes*
na Agência Carta maior - 28/02/2010 | Copyleft

Ao contrário de vários povos, o brasileiro tem a mania de se automenosprezar, de se achar menor e de assumir culpas de fatos e problemas que não são seus. Se há corrupção, é que todos seriam corruptos. Facilmente, deslizes pequenos cometidos pelos pobres são comparados aos atos deliberados agentes de Estado e de ladrões engravatados (empresários) que enriquecem com o dinheiro público. Segundo este vício terrível, os brasileiros seriam menores por terem origem nos negros africanos, nos índios das Américas e nos portugueses, vindos para cá para roubar. O caráter nacional da população desse país teria nascido torto e sem solução. Por compensação, os habitantes do Brasil teriam uma natureza geográfica exuberante e, Deus, de fato, seria nascido aqui.

Estas afirmações não são tão difíceis de serem compreendidas. Observe-se que nelas há uma tentativa de ocultar o que é possível ver a olho nu. A autofagia brasílica tem origem colonial, foi refundada no Império e reafirmada na República. Nela, se misturam o olhar do colonizador e criador dos fundamentos culturais dominantes do país com o dos colonizados que se miraram no espelho dos que vieram para cá e se apossaram deste pedaço das Américas. Nesta visão, tudo de bom era o que vinha de fora, aqui era o lugar para acumular riquezas de modo fácil e usar dos lucros para comprar as mercadorias do além-mar.

Os racismos antinegros e anti-ameríndios têm a idade do início da colonização, logo, cinco séculos. A inferiorização das maiorias foi estendida aos seus descendentes, gerando um sentimento de menoridade e incapacidade até mesmo nas elites mestiças. Este modo de ver o mundo deixou raízes profundas e se escamoteou em vários modos de dizer que os brasileiros eram um povo de segunda classe. Jamais isto foi inteiramente superado, persistindo de algum modo até o século XXI. O modo de falar isto já não é o mesmo do passado. Mas, o racismo continua presente em fontes insuspeitas, por exemplo, nas emissões da tv aberta. Nelas, os índios praticamente não existem e os negros, apesar de serem a maioria dos habitantes do Brasil, têm apenas uma cota informal, conseguida com bastante dificuldade e muito recentemente.

O pano de fundo de tudo isto foi os quatro séculos de escravidão dos afrodescendentes que embutiram os esquecidos dois séculos de cativeiro dos nativos. Mesmo com a escravidão em crise na segunda metade do XIX, quem eram os que não eram escravos? Os imigrantes europeus que aportaram no Brasil, aqui encontraram condições de vida bem próximas as da escravidão. Como nos EUA coloniais, usou-se, com eles, o sistema de servidão por contrato. Neste, os que vinham estavam sempre devendo aos fazendeiros e as empresas que os traziam. Os escravos alforriados na mesma época, deviam quase sempre obrigações aos seus ex-senhores. Não eram mais escravos de direito, mas continuavam próximos à situação de escravos de fato. A abolição legal da escravidão (1888) representou uma importante mudança. Entretanto, os estoques de populações originárias do passado escravista continuaram a ser discriminados, até mesmo pelos imigrantes brancos que vieram substituí-los, progressivamente, desde o governo do Pedro II.

O racismo brasileiro fundamentou, e ainda fundamenta, o automenosprezo de segmentos da população, que imaginam o país como inferior e sem solução. As elites adoram e disseminam este sentimento, que é fortemente conservador e útil aos propósitos dos mais ricos e poderosos. Felizmente, desde há muito, há quem não concorde com nada disto e lute para dizer o óbvio. O Brasil é um país como outro qualquer. Do ponto de vista moral, não é menor e nem maior. Seu povo tem qualidades e defeitos, como qualquer outro. O que existe aqui pode ser modificado para melhor ou para pior, dependendo de quem estiver no poder e do comportamento dos governados.

Oficialmente, o país não é mais racista. Desde a era Vargas, o Estado foi abandonando pouco a pouco uma postura discriminadora. Trocou o racismo escancarado do Império e da República Velha pelo mito questionável e problemático da democracia racial. O fazer político precisava de se organizar, isto é, os governantes necessitavam inventar um povo de governados. Precisava se dirigir diretamente à maioria da população, tal como Vargas o fazia: “Trabalhadores do Brasil...”. A mestiçagem foi considerada um bálsamo, sem que o velho racismo desaparecesse por completo. Afastado de uma militância estatal ostensiva, ele se refugiou nas estruturas sociais, dando um jeito de se manter. Memoráveis lutas antiracistas fizeram o combate a esta ideologia, nos últimos cinqüenta anos. Entretanto, apesar de cada vez mais acuado, denunciado e criminalizado, o racismo continua presente no cotidiano brasileiro.

História Negra - A verdadeira história de nosso povo
Frank Morrison

Ninguém mais tem a coragem de dizer publicamente que os negros, os índios e os mestiços são povos inferiores. Mas, eles continuam tendo níveis de segregação facilmente constatáveis nos dados que indicam que eles são os que: são mais pobres; mais estão presentes nos presídios; são os maiores números de desempregados; enfrentam piores condições de vida; têm suas histórias sonegadas no ensino de qualquer nível; menos aparecem nas grandes mídias.

Há exceções importantes
. No futebol, a negritude e a mestiçagem brasileiras são celebradas como gênios da raça. No carnaval, como diz o poeta, “napoleões retintos”, desfilam para os brancos do Brasil e do mundo, encantando as audiências e escondendo uma dura realidade. Nos últimos anos, foram possíveis o aparecimento e desenvolvimento de classes médias negras, ávidas para consumir e se diferenciar. O que continua como dantes é a ignorância sobre as histórias dos povos de origem africana que aqui aportaram e, ainda mais forte, o silêncio sobre a história das populações indígenas encontradas pelos portugueses no século XVI. Os jovens sabem bastante sobre as últimas novidades de consumo midiático e tecnológico. Nada, ou quase nada, conseguem alcançar sobre suas origens. Mesmo que na Internet exista bastante informação sobre estas coisas. O problema é que elas são raramente acessadas e são rarefeitas e pulverizadas no universo comunicacional caótico do tempo presente.

*Luís Carlos Lopes é professor e autor do livro "TV, poder e substância: a espiral da intriga", dentre outros

Extraído de Carta Maior

Recebido de Lucia I. Reali Lemo a quem agradecemos.

Touch a child touch the future - Sylvia Walker
-