quarta-feira, 4 de março de 2009

IPCN – Escola de cidadania e consciência


IPCN – Instituto de Pesquisa das Culturas Negras: Escola de cidadania e consciência

Marcos Romão*


  • A propósito da mensagem de Paulo Roberto dos Santos - 2009/03/01 - sobre o que ele chamou de “estado lastimável de conservação do prédio” do IPCN, lembrando que o IPCN - fundado em 1975 - foi uma verdadeira escola de militância polí­tica negra no Estado do RJ - Discriminação Racial - discriminacaoracial@yahoogrupos.com.br (MLG)


É uma tarefa para todo o movimento negro do Brasil ajudar o IPCN a renascer.

Sem me arriscar a fazer estatísticas, posso dizer que um grande número de negras e negros que ocuparam ou ocupam postos de decisão no Rio e no País, tiverem seu “nascer negro” no ou via IPCN.. Ou foram incentivados e apoiados por este Instituto (nome possível durante a ditadura).

A própria Lei “Caó” remendada no Congresso Nacional, nasceu das pesquisas e documentos juntados na ação do primeiramente chamado em 1981 “SOS Negro”, depois “SOS Discriminação Racial” e, por fim, “SOS RACISMO, CIDADANIA e DIREITOS HUMANOS”, ou, simplesmente, “SOS Racismo”.

Nesse período de 1981 a 1988, passou por lá praticamente todo mundo do País. Buscavam subsídios e apoio “moral” para suas demandas pelo País afora: candidatas e candidatos de partidos políticos; ativistas sociais; capoeiristas; afro-religiosos; acadêmicos de estrada e iniciantes; sindicalistas e alguns patrões; policiais; ex-policiais; ex e futuros presidiários; candidatos a governadores (não lembro se algum eleito nos visitou).

Além do mais, tivemos sempre as portas abertas para as lideranças indígenas e outros grupos discriminados, que cito, como exemplo, o “Da Vida”.

A característica maior do IPCN, desde sua fundação, foi o de ser um espaço base de alavanca para tudo quanto fosse grupo do movimento negro que lá aparecesse.




Abdias Nascimento - nov. 1978 - em São Paulo-SP. Foto Rosa Gauditano

Abdias Nascimento chegando do exílio; Maria Beatriz Nascimento puxando todos os que “baixavam” da academia; Caó e alguns outros “sujando” seus dedos de jornalistas e de sindicalistas de esquerda neste movimento, até então olhado com uma desconfiança do cão pelas forças “progressistas”.

Em seu período de ouro, de 1981 a 1988 (na minha opinião) a Casa foi um centro de debates: junto com os ilês/casas da Bahia; com a turma sempre bem organizada de São Paulo; com os super-criativos do Rio Grande do Sul; os que botaram os direitos humanos na frente do Pará; os mineiros que foram eleitos no triângulo dos latifundiários; os do Amazonas que nos mostraram que no Brasil havia (e continua havendo, Axé!) um povo das florestas; os grupos de homossexuais, que botaram à prova a homofobia dos homens negros. Era uma “salada geral”, cheia de confusão e mal-entendidos, fofocas e uma criatividade da peste! Com reuniões que varavam a noite! E quem passasse por aquela rua escura da Avenida Mem de Sá (centro do Rio), pensaria que só tinham inimigos ali dentro. Engano!

Com todas as divergências de “fundo”, colocou-se na rua, em 11 de maio de 1988, uma das manifestações mais marcantes de negras e negros brasileiras/os que se conheceu na história do Brasil. Arrisco-me a dizer, que para os negros e as negras do Brasil há o antes e o depois do “Nada mudou. Vamos Mudar”. Lá estavam lado a lados todas e todos que tinham, durante 7 anos, arrancado os cabelos uns dos outros!


1988 Marcha Farsa da Abolição. Foto Januário Garcia

Só dou uma pista para os “acadêmicos” futuros e negrófilos de plantão: essa marcha, que tinha várias correntes participando, teve o mote e palavras de ordem de uma das correntes majoritárias, e foi em sua maior parte financiada pela outra corrente também das majoritárias. Só quem estava por fora, achava que poderíamos ser inimigos!

Agora, onde é que o bicho pega? Falei dos “louros”, mas cadê a cozinha? Não se faz comida sem antes ir ao armazém! Não se faz movimento social autônomo sem ter grana, dinheiro, l´argent!

De 1982 a 1988, o IPCN foi reformado e teve seus papéis colocados em dia, incluindo impostos e coisas prediais, pois já prevíamos o filé mignon que aquela região no centro do Rio iria virar.

O grosso da reconstrução se deu entre 1983 e 1986. O arquiteto foi de graça (1) (2). O material de construção foi doado ou comprado com projetos, aqui e ali. Mas o principal foi o telefone e duas meninas-senhoras: Cris e a outra (meu Deus! Esqueci o nome agora! Mas quem está com a memória mais fresca vai se lembrar!) Eram militantes e funcionárias, em uma época em que nem se falava em ONG! Faziam “das tripas coração” para atender e encaminhar os casos de discriminação, a um ponto tal que as más línguas falavam que o “Informe JB” era o “diário oficial do Sos Racismo do IPCN”. Só tínhamos notícias quentes. Sei que não foram só elas, mas elas deram uma grande força, pois dentro do IPCN surgiram vários grupos de mulheres negras que hoje agitam o país.

Não foi só o IPCN, eu sei, mas acho que com todo machismo arraigado entre nós negros, foi o IPCN um dos lugares do movimento negro em que nós, homens negros, começamos a ser checados. E, já em 1982, muitos de nós fizemos campanhas para mulheres negras dos partidos progressistas.

Resumindo, para não ficar me alongando: renascer o IPCN é tomarmos tenência de que sem poder econômico, e sem um local de nossa propriedade, como é o IPCN, vamos ficar balançando naquela cestinha lá encima no navio do poder. Cestinha que tem um nome dado pelos colonizadores para colocarem aqueles que primeiro viam a terra, mas que quando lá chegavam não partilhavam do poder.


IPCN é marca na Av. Mem de Sá. Foto Adagoberto Arruda - 2007


É isso! É exatamente como as mulheres falam: para chegar ao poder, muito homem tem que ceder seus lugares. Para chegarmos ao poder no Brasil, os brancos vão ter que abrir mão de muitos lugares nos espaços que têm ocupado sozinhos.

E, para chegarmos ao poder, só tendo e valorizando nossas propriedades coletivas, como é o exemplo IPCN.

A maioria dos negros tem uma dívida muito grande com essa instituição! E os negros do Rio de Janeiro — me incluo nesses – temos uma obrigação infinita com essa Casa, com esse Ilê! Que não entreguemos a rapadura! Vamos apoiar Maria Alice Santos. E já apresento uma proposta: uma base da nossa rádio tambor, a Mamaterra Radio TV, no IPCN.

Asé


* Marcos Romão - Soziologe&Freier Journalist (DJU-Hamburg)
Interkulturelles Komunikationszentrum Quilombo Brasil
Rádioweb Mamaterra
http://www.mamaterra.de/

  • (1) se não me engano, Romão se refere a Dr. Milton Lima, sócio do IPCN, que está agora, novamente, às voltas com plantas baixas e orçamentos, para a reativação do prédio. (MLG)
  • (2) Antonio Juliano é o nome do arquiteto. Meu cunhado que teve seu batismo de "negão" nos ajudando na reforma da Casa que, agora, estamos tentando salvar de novo. (Marcos Romão, no adendo)
  • Para acompanhar o esforço de militantes, exatamente desde 25 de novembro de 2006 - quando houve a primeira convocação de "reunião emergencial" para "resgate do IPCN", vale seguir os links dos registros feitos por Adagoberto Arruda que, incansável, tem estado todo esse tempo ao lado de Maria Alice Santos, nessa empreitada que tem sido singular e solitária, apesar de ser do conhecimento de autoridades-militantes-negras que ocupam cargos nos 3 níveis de poder: municipal, estadual e federal. (MLG)

    IPCN em 13.04.2007
    IPCN em 15-04-2007 – só fachada
    IPCN - Assembléia 10-05-2007

    O endereço de E-mail da atual Diretoria é ipcn_ipcn@yahoo.com.br


Texto de Marcos Romão, residindo em Hamburgo (Alemanha), em resposta na lista discriminacaoracial@yahoogrupos.com.br (conforme indicado acima). Editoração e observações por Ana Felippe, sócia-fundadora do IPCN nº 37.

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Um comentário:

  1. Adagoberto Arruda6 de março de 2009 12:00

    Excelente contribuição à Instituição que só pleiteia melhores condições de vida â parcela da população excluida dos processos de engrandecimento pessoais.
    A atual Diretoria do IPCN agradece a esta incansável Sócia Ana Felippe, criadora e mantenedora do Memória Lélia Gonzalez.

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