sábado, 4 de abril de 2009

Lula, a crise econômica mundial e os "olhos azuis"

Menos, please!
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Sírio Possenti*

De Campinas (SP) - Quinta, 2 de abril de 2009, 08h04

Os jornais "repercutiram" em doses cavalares um trecho da fala de Lula em entrevista ao lado do Primeiro-Ministro Brown, o que dizia que esta crise econômica foi provocada por gente branca de olhos azuis. Diversos comentaristas foram tão literais que chegaram a objetar, para mostrar a inadequação de Lula, que os olhos de Brown não são azuis, vejam só, assim como não devem ser os de todos os dirigentes que ajudaram na bandalheira.

Não faltou quem dissesse que a declaração de Lula foi racista. Ora, para que fosse, a declaração deveria ter explicitado ou insinuado uma relação de causa e efeito ou de condição e consequência entre ser branco de olhos azuis e gerir bancos e outros empreendimentos do jeito que esses caras o fizeram.

Mas seu discurso sequer deu a entender que fraudadores são fraudadores porque são brancos e têm olhos azuis. O discurso racista relativo a negros, judeus e ciganos, para ficar nos exemplos universais mais óbvios, só é racista porque diz que eles fazem o que fazem e deixam de fazer o que deixam de fazer - segundo a reles avaliação dos brancos de olhos azuis ou nem tanto - porque são negros e porque são judeus e porque são ciganos. Até avaliações positivas em certos espaços podem eventualmente ecoar racismo. Tenho minhas dúvidas sobre como avaliar os discursos que dizem que os negros são melhores em música e esporte e mesmo os orientais em matemática.

Do mesmo modo, o machismo só é machismo se explicitar ou implicar que certas ações e direitos são o que são porque seus autores ou destinatários são do sexo / gênero masculino. Só se é machista defendendo que certas características "negativas" são típicas de mulher, que elas são assim (dirigem de certa maneira, demoram a se arrumar, nada entendem de futebol, para ficar em exemplos "leves") porque são mulheres. Ninguém é antissionista se disser que Israel atacou Gaza assim ou assado. Só o seria se dissesse que certas ações condenáveis da guerra foram o que foram porque seus agentes eram judeus.

É até compreensível que se veja racismo onde ele não existe (em expressões como "período negro da história"). É que a parte branca da humanidade, de olhos azuis ou não, já falou tanto sobre tais pretensas relações de causa e efeito, que basta mencionar a questão para que o racismo histórico volte à memória - mesmo que seja só por associação.

Mas, convenhamos, não é o caso quando os alvos (sem trocadilho) são brancos, louros ou não, de olhos azuis ou verdes ou castanhos. Tem gente que pergunta por que não haveria racismo quando se "diminui" os brancos. É que o racismo histórico, como fato histórico, nunca esteve associado a eles. Eu, por exemplo, nunca poderia achar que foi racista o garçom negro de um bar de beira de piscina não importa onde que ria de minha brancura (e me chamava de "branquelo" e sugeria, rindo de mim, que eu me protegesse do sol). Racismo não é chuva para cair do céu de repente.

Além disso, convenha-mos, "brancos de olhos azuis", considerado o amplo contexto em que a expressão foi proferida, refere-se "àqueles caras lá do norte, metidos a dar lições e a decidir quando podem conferir o tal grau de investimento", tenham os indivíduos a cor que tiverem, da pele e dos olhos. Além disso, muito claramente (tem gente que vai achar que esse "claramente" é racista!!), a expressão não se refere ao povão de lá, mas aos responsáveis pelas instituições financeiras ou empresas automobilísticas e quejandos. Obama, dependendo do que fizer, será um branco de olhos azuis, mesmo sendo negro.

Se houve erro, e pode ter havido, foi de etiqueta. Não entendo nada desse negócio (chamem a Glorinha Kalil), por isso nem comento. Apenas acrescento que não gosto muito de linguagem excessivamente descolorida (não digam que há racismo também aqui!), convencional demais, a não ser como corpus para uma análise.

Vários editoriais e colunas e reportagens bateram duro. Como era de esperar, não bateram nos loiros de olhos azuis, nem nos PhDs, mas apenas em morenos de pouca escolaridade. Seria mais fácil ver racismo (que não há!) na imputação de racismo a Lula do que em sua menção aos brancos do norte. Ver racismo nessa declaração é exemplo chapado de superinterpretação. Lula dá suficientes razões para críticas justas. Não é necessário inventar outras.

Mas, considerando outros fatos, fica bem claro (não faltará quem veja aqui outra recaída racista!!) a sociedade brasileira mostra todos os dias o quanto é vantajoso ser branco de olhos azuis. As segundas instâncias do Judiciário sempre se movem celeremente para fazer justiça - ou para aplicar a lei - quando brancos são presos.

Uma Daslu move a Justiça muito mais rapidamente do que cem Daspu.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: mailto:msiriopossenti@terra.com.br%20

fonte:
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ilustrações por Memória Lélia Gonzalez:
2 - em visita à fábrica da Volkswagen - Lula_AFP_JB_03_05_2005
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Relatório Global do UNIFEM aponta Lei Maria da Penha entre as três mais avançadas do mundo

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Relatório Global do UNIFEM aponta Lei Maria da Penha entre as três mais avançadas do mundo

O relatório global “Progresso das Mulheres no Mundo e 2008/2009”, que teve lançamento no Brasil na segunda (30/3), aponta como desafios urgentes: a maior participação das mulheres nos espaços de poder e decisão, a garantia de políticas públicas que assegurem os direitos das mulheres e a responsabilização do poder público em relação às políticas para as mulheres. O documento terá lançamento, nesta quarta (1º/04), às 15h, na sede da OPAS (Organização Panamericana de Saúde) no Setor de Embaixadas Norte, Lote 19, em Brasília.

Uma das constatações mais importantes do relatório é a classificação da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06) como uma das três legislações mais avançadas para enfrentamento da violência contra as mulheres no mundo. Está ao lado da Lei de Proteção contra a Violência de Gênero da Espanha (2004).

Inês Alberdi, diretora executiva do Unifem, fará a apresentação dos dados do relatório “Progresso das Mulheres no Mundo 2008/2009” para o Governo Federal, sociedade civil, corpo diplomático e Sistema ONU (Organização das Nações Unidas), na OPAS (Organização Panamericana de Saúde), em Brasília. A ministra Nilcéa Freire, da SPM (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres), e Ana Falú, representante do Unifem Brasil e Cone Sul, participam do evento, que será aberto à imprensa.

Progresso das Mulheres no Mundo

O “Progresso das Mulheres no Mundo 2008/2009” alerta para a possibilidade de descumprimento dos ODMs na perspectiva da igualdade de gênero até 2015, prazo em que todos os objetivos devem ser atingidos. Apesar de alguns avanços, o relatório verifica atraso na maioria dos ODMs, sobretudo na perspectiva das mulheres.

Responsabilização

O tema central do relatório - “Quem responde às mulheres? Gênero e Responsabilização” -, é abordado como grande questão para garantia dos ODMs e dos compromissos internacionais voltados às mulheres. Responsabilização significa avaliação do desempenho e imposição de ação corretiva ou de reparação nos casos em que os desempenhos das políticas públicas não forem adequados. Em relação às políticas para as mulheres, esse conceito propõe que as decisões do poder público devem ser avaliadas por homens e mulheres numa base de igualdade.

http://www.brasil.gov.br/noticias/ultimas_noticias/010409-2/

http://www.unifem.org.br/003/00301009.asp?ttCD_CHAVE=81813
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Câmara debaterá participação do Brasil em conferência mundial contra racismo

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Câmara debaterá participação do Brasil em conferência mundial contra racismo

Uma audiência pública na Câmara vai debater a atuação brasileira no processo de revisão da Conferência Mundial contra o Racismo - Durban II, hoje, às 10h, no plenário 9. O evento contará com a participação do ministro Edson Santos, da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, e de representantes do governo e da sociedade civil que participarão da conferência da ONU, a ser realizada em Genebra, de 20 a 24 de abril, precedida por reunião do Comitê Preparatório, que começa no dia 14 próximo.

A audiência pública será promovida pela Comissão de Direitos Humanos (CDH), em parceria com a Comissão de Relações Exteriores da Câmara e a Frente Parlamentar pela Igualdade Racial.

O Brasil tem atuação relevante nas discussões sobre essa temática no cenário internacional, principalmente porque, no campo interno, dispõe de uma agenda proativa, com políticas públicas referenciais sobre igualdade racial.

"A CDH e a Frente Parlamentar pela Igualdade Racial assumiram o compromisso de contribuir para que a delegação brasileira tenha papel ativo na luta pela eliminação da discriminação racial", explicou a deputada Janete Rocha Pietá (PT-SP), uma das proponentes do evento. Os deputados Carlos Santana (PT-RJ), coordenador da Frente Parlamentar pela Igualdade Racial, e Luiz Couto (PT-PB), presidente da comissão, também são autores dos requerimentos.

Expositores – Além do ministro Edson Santos, participam da audiência, entre outros: a ministra Glaucia Silveira Gauch, diretora do Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais do Ministério das Relações Exteriores; e Edna Roland relatora da Conferência Mundial contra o Racismo – Durban, 2001 e representante da Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial.

fonte: Informes 2/abr/09/Ano XV nº 4209. Ilustração da matéria, no original.

PARA SABER MUITO MAIS: http://avaliacaodurban2009.wordpress.com/
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Petista defende campanha para avaliar participação da mulher na política

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Petista defende campanha para avaliar participação da mulher na política


A deputada Dalva Figueiredo (PT-AP) propôs, ontem, a realização de uma campanha pública para verificar como a população vê a disputa da mulher por um posto político. A sugestão foi apresentada durante a reunião da Bancada Feminina com a diretora executiva do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), a espanhola Inês Alberdi.

A bancada discutiu outros assuntos, entre eles, o financiamento público de campanha e a criação de cotas no Fundo Partidário para promover a inserção da mulher nas eleições. Para a deputada Dalva, com a criação das listas fechadas juntamente com o financiamento público de campanha "será possível para a mulher avançar na conquista por mais espaços na política brasileira, hoje com percentual majoritariamente masculino".

As parlamentares expuseram ainda para a diretora do Unifem a necessidade, no Brasil, de políticas que facilitem a vida das mulheres como a criação de restaurantes e lavanderias populares, além de creches e a mudança nos horários de reuniões políticas para que aquelas mulheres que estudam à noite possam participar sem comprometimentos.

Inês Alberdi afirmou ter se "impressionado" com a força apresentada pelas parlamentares brasileiras coisa que, segundo ela, "se vê pouco nos parlamentos de outros países". Ela afirmou que as listas partidárias com o mesmo nível entre homens e mulheres, sugerido pelas parlamentares, é um ponto "importante" na luta feminina por mais espaço político.

O Unifem tem o objetivo de apoiar atividades inovadoras que beneficiem as mulheres, conforme as prioridades nacionais e regionais, além de garantir a participação das mulheres nos processos de desenvolvimento e desempenhar um papel catalisador dentro do Sistema Nações Unidas, com respeito à incorporação da perspectiva de gênero nos projetos e programas para o desenvolvimento.

Também participaram da reunião as deputadas petistas Janete Rocha Pietá (SP) e Cida Diogo (RJ).

fonte: Informes 2/abr/09/Ano XV nº 4209
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sábado, 28 de março de 2009

Aprovado na Câmara projeto que institui pai social


Aprovado na Câmara projeto de petista que institui pai social


A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovou na semana passada o PL 2971/04, do deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), que institui a figura do pai social, com as mesmas características, direitos e deveres já existentes para a mãe social (funcionária de abrigo responsável pelo atendimento em período integral de crianças e adolescentes em situação de risco). O projeto tramitou na Câmara em caráter conclusivo e segue para o Senado.

O texto também amplia o leque de benefícios sociais para as pessoas que exercem essa atividade. A proposta altera a Lei 7.644/87, que criou a figura da mãe social. A lei não previu a figura do pai social. Na prática, isso diminuiu o alcance social da norma, pois muitas vezes o papel de família substituta é desempenhado pelo casal (sem que o marido receba por isso).

O texto aprovado pela Câmara traz novos benefícios para os pais e mães sociais. Entre eles estão o seguro-desemprego, o aviso prévio de 30 dias, o seguro contra acidente de trabalho pago pela entidade mantenedora, e a aposentadoria pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A proposta também beneficia a família social com assistência gratuita aos filhos desde o nascimento até cinco anos de idade em creches e pré-escolas. Em relação à Lei 7.644, o número de benefícios passa de oito para 31.

Com o PL 2971, os pais terão as mesmas obrigações das mães, que são a criação de condições familiares adequadas, orientação e assistência às crianças e adolescentes sob seus cuidados e administração das casas-lares, nome previsto na Lei 7.644 para designar as residências que abrigam até dez crianças ou adolescentes.

Também terão os mesmos direitos trabalhistas e previdenciários das mães sociais. Isso inclui carteira de trabalho assinada, remuneração igual ou superior ao salário mínimo, apoio técnico e financeiro, férias anuais de 30 dias, descanso semanal remunerado de 24 horas, 13º salário e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Informes 30/mar/09/Ano XV nº 4206

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domingo, 22 de março de 2009

Os bancos dos jardins e a pira de molambos


Banco na entrada do Museu do Apartheid,
na África do Sul, onde se lê "Apenas Europeus"
('Europeans Only'. Apartheid Museum)

Coisas da Política - Os bancos dos jardins e a pira de molambos

Mauro Santayana

As prefeituras de São Paulo e do Rio encontraram um meio para limpar as duas cidades dos detritos humanos que as infestam. É ainda o início do processo, que promete completar-se com outras medidas. Os bancos das praças e jardins, usados pelos miseráveis sem-teto, serão separados por placas divisórias. Dessa forma, os mendigos não poderão neles dormir. Os bancos dos jardins, disse uma autoridade carioca, se destinam às "pessoas de bem", que, deles, poderão contemplar as belezas da cidade. A premissa se impõe: quem é de "bem" no Brasil? Provavelmente essa sábia e justa autoridade considere que as pessoas de bem sejam as pessoas "de bens". Se assim for, poderíamos estabelecer uma escala, dentro de moderna definição moral. Poderiam criar um registro para que as pessoas se inscrevam, de acordo com sua riqueza e renda, devidamente atestadas pela Receita Federal. Quanto maiores os bens, maior seria sua respeitabilidade. A transubstanciação do advérbio "bem" no substantivo plural "bens" atende à nova linguagem do poder.

Trata-se da continuação de processo antigo e reanimado pelo novo liberalismo, que sofre agora seu desaire, mas não se considera vencido. O raciocínio é singelo: o mundo é lindo se for habitado por pessoas bem vestidas, sadias, belas. "Beleza é saúde", dizem os slogans de propaganda. Antes mesmo de Hitler, houve quem propusesse programas de eugenia, com a esterilização dos deformados e inúteis. Os eugenistas relacionam a estética ao comportamento, como o fez Lombroso: o feio é sempre malfeitor. O feio, o sujo, o desempregado, o demente, o descalço, o descamisado, o macróbio. Enfim, para resumir, o pobre e indefeso.

Os bancos "verdes" da prefeitura do Rio

O processo de exclusão, se não for contido, evoluirá. Daqui a pouco, as posturas municipais – e, mais tarde, a legislação estadual, antes da federal – exigirão que só andem nas ruas os que estiverem bem vestidos. Postos de vigilância serão instalados nos terminais de ônibus, e detectores digitais utilizados, para mandar de volta aos subúrbios e favelas os que não estiverem devidamente aptos ao convívio "civilizado", para usar o eufemismo corrente. Esses instrumentos identificarão os acometidos de alguma doença contagiosa, que serão isolados, no ato. O processo, para seu êxito final, reclama medidas ainda mais rigorosas. Como os mais velhos se lembram, houve quem se atrevesse a mandar afogar os mendigos no Rio da Guarda, e quem aconselhasse a resolver o problema das favelas cariocas mediante o fogo saneador.

Como ocorre em tempos semelhantes, há "voluntários" e "justiceiros" que se adiantam na ação de "limpeza". Em Brasília, bravos rapazes, filhos de gente "de bem" e de bens, queimaram um índio que dormia na parada de ônibus. Outros os imitaram, em várias cidades brasileiras. Em São Paulo, moradores de rua morreram a tiros. No campo, cerca de 1.500 trabalhadores sem terra foram abatidos nos últimos anos, segundo estatísticas da CNBB.

A concentração da riqueza, associada à inevitabilidade da transparência, com os novos meios de comunicação da cidadania, está semeando o inconformismo e, fatalmente, conduzirá à revolta dos excluídos. Os pobres, sempre mais pobres, constituem hoje nova etnia, consciente da injustiça que sofre. Essa consciência cresce, enquanto aumenta a hostilidade contra os excluídos, na humilhação cotidiana e no soberbo desdém que lhes destinam parcelas alienadas da classe média. Os pobres se encontram acuados como animais de presa, e chegará o momento em que o medo será substituído pelo desespero.

Em setembro de 1935, os alemães promulgaram as leis de Nurenberg. Sua primeira aplicação se fez nos bancos dos jardins e praças públicas, com a inscrição que os vedava ao uso dos judeus: nicht für juden. Nos anos seguintes, houve os campos de extermínio, as câmaras de gás, a morte de 6 milhões de judeus, 20 milhões de eslavos, ciganos e outras "raças inferiores", e o sacrifício de milhões de jovens combatentes nos dois lados do front. Em abril de 1945, o corpo do suicida Adolf Hitler foi torrado às pressas junto aos restos de uma cadela e seus filhotes, em pira de molambos e gasolina.

O Ministério Público deve agir, e já. Todos os seres – e não só os homens – têm o inegável direito a dormir, quando e onde lhes for possível. Privá-los do sono é abominável forma de tortura.

Domingo, 22 de Março de 2009

extraído de JB Online - 2009/03/22



Fig. 3. The two entrances at the Apartheid Museum,
Johannesburg: for 'Whites' and 'Non-Whites'.
The bench outside is labelled 'Europeans Only'. Apartheid Museum
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Quilombolas da Região dos Lagos vivem penúria!


Descendentes de escravos da Região dos Lagos viram tema de documentário
Publicada em 21/03/2009 às 16h34m
Ludmilla de Lima e Luisa Valle


RIO - Num mundo onde as barreiras culturais há muito tempo foram rompidas, seis irmãs quase centenárias preservam involuntariamente hábitos hoje praticamente contados apenas nos livros de história. Na área rural de Iguaba Grande, município da Região dos Lagos a 123 quilômetros do Rio de Janeiro, Georgina, Sigislete, Hermanda, Maria, Hilda e Luiza da Conceição seguem a vida de acordo com tradições herdadas de seus ascendentes do Congo escravizados no século XIX. Elas são remanescentes do quilombo de Papicu, já extinto. Fechadas em seu próprio mundo, as "irmãs congas", como são conhecidas, se comunicam por meio de um dialeto próprio, onde palavras em português dão lugar a expressões bantu.

As culturas africana e escravista também estão vivas no modo de vida da família: como era de costume nos tempos da escravidão, elas circulam pela cidade em fila indiana, sempre respeitando a liderança da mais velha, Georgina. Moradoras da Cruz, região rural da cidade, elas caminham mais de uma hora até o Centro - têm medo de ônibus - e escondem uma dura história de vida e uma rotina muito longe da ideal, na qual o alimento do dia muitas vezes depende da boa vontade de vizinhos e a população local, que nem sempre consegue compreendê-las. As congas, no entanto, são há mais de 50 anos personagens míticos do município, que vive basicamente dos veranistas.

- O respeito aos mais velhos é uma caracteristica importante de grande parte das sociedades africanas e dos povos de língua banto em especial. No Rio de Janeiro da primeira metade do seculo XIX, a concentração de africanos de lingua banto era realmente notável. Bantificou o português brasileiro e deixou marcas mais profundas em alguns grupos e falas regionais. Andar em fila também era uma caracteristica da sociedade escravista brasileira - observou a historiadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Hebe Mattos.

As letras e as horas não existem para essas mulheres: nenhuma foi alfabetizada, e todas contam com a natureza para calcular o tempo. Tempo que parece não passar nas cabeças brancas de Georgina, Sigislete, Hermanda, Maria, Hilda e Luiza. Não por acaso, uma das características mais inusitadas da família é o fato das seis serem solteiras e ainda sonharem com o casamento. Apenas uma teve um filho. Na sua linguagem própria, decifada pela historiadora e museóloga Nilma Teixeira, diretora de um documetário sobre as congas, Hilda revela o desejo:

- Se Deus quiser a gente vai ter filhos - afirma Hilda, a mais falante e sonhadora das irmãs, alheia ao fato de que hoje, já contando cerca de 80 anos - pelos cálculos da sobrinha -, essa já não é mais uma possibilidade.

Mesmo sem conhecer a idade - todas foram registradas somente na década de 70 -, elas não admitem serem chamadas de senhoras. E são vaidosas. Antes de receber uma visita é preciso aguardar até que estejam prontas, com cabelos presos e vestidas com suas melhores roupas. Até o soutien ganha uma armação de lata, tudo para garantir a silhueta de uma jovem noiva. Pelas contas de parentes, a mais nova tem mais de 70 anos, enquanto a mais velha beira os cem.

Na contramão do estranhamento provocado na maioria da população local, as congas despertaram a curiosidade de Nilma Teixeira e viraram tema de um documentário patrocinado pela Petrobras. Nilma, que passava seus verões em Iguaba, admitiu sempre ter tido uma forte curiosidade sobre elas quando era criança.

- Lembro delas desde que tinha dez anos. Elas eram adultas e andavam pela cidade vendendo guando - recorda a idealizadora do documentário "Ibiri:tua boca fala por nós", que deve ser exibido no fim deste mês. No documentário, a historiadora explora a luta delas por uma terra onde possam plantar. No passado, quando possuiam terras suficientes para uma lavoura, a família chegou a abastecer parte da cidade. Hoje, sem as terras, que foram tomadas a força por um grande fazendeiro da região, há 30 anos – episódio traumático que é ainda hoje um tabu para a família Conceição -, elas comercializam o pouco que dá para plantar em cerca de 200 metros quadrados de chão, cedido por um proprietário sensibilizado com a penúria das congas. Basicamente dali saem limão, acerola e urucum.

- Antigamente elas abasteciam a região com o que plantavam. Hoje vivem da ajuda de vizinhos e da sobrinha - conta Nilma.

Crentes da realização do sonho, as seis guardam as sementes de tudo que comem em pedacinhos de papel, que já se acumulam em sacolas de plástico, e aguardam ansiosas por um pedaço de terra para "pegarem na enxada" e viver.

- A gente plantava mais, mas não temos muito espaço. A gente vendia mel, farinha, ovo, mas acabou tudo. Não gosto de lembrar, quando falo já dói o coração - lamenta Georgina.

Ver mais fotos das irmãs moradoras de Iguaba Grande

Assista ao vídeo de Hilda, uma das irmãs, explicando o que é Quilombo - só para assinantes O Globo

extraído de O Globo Rio - 2009/03/17

recebido de Adagoberto Arruda

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